domingo, 8 de maio de 2011

Minha mãe guerreira

Faz um ano, exato um ano que nossa luta começou, com tantos tombos, lágrimas, medos... Pessoas que olhavam-na compadecidos, ou choravam lágrimas da perda certa. Era como se estivéssemos remando contra a maré, lutando contra algo que não podíamos ver, tocar, sentir. Só ela sentia, só ela sabia o que estava passando.
Provei da mais pura fé, embebedando-me para seguir em frente, sem esmorecer. Como apresentar-me naqueles poucos minutos que tínhamos para matar as saudades, com o semblante desanimado, como que certo da derrota? Como, desencorajada, poderia manter fortes àqueles a quem tanto amo?
Sentia-me responsável. Sentia-me como óbvio, ser aquilo que minha mãe sempre foi para nós: a fortaleza na qual encontramos a certeza de que tudo acabaria bem no final.
Chorava sozinha, muitas vezes, dissolvendo minhas lágrimas na água que lavava meu corpo. Percebia assim, que talvez fosse capaz de, assim como as lágrimas, dissolvendo a dor e o medo, deixando-os escorrer pelo ralo como fazia com minhas lágrimas. Não poderia perder a fé. Era isso que mantinha-me de pé, assim como todos aqueles que amam minha pequena.
Fazia-me rir qdo alguém me ligava. Não nego que por diversas vezes, deixei de atender esse bendito mal que tão necessário nos é, por cansaço. Não cansaço pelo que vivenciava, mas por ter sempre que ser aquela que consolava. Aquela que dizia que tudo ia acabar bem.
Qdo, depois de quase duas semanas de internação disseram-nos que era maligno... Segurei-me para não desmoronar. Algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto sem sequer sentir. Pensei nela, que já ciente desde o primeiro dia da sua condição, pensei no meu pai, pensei em tudo e em nada. O que fazer? Como portar-me? O que falar?
Entrei no quarto, e ela ao me olhar começou a chorar. - Vai ficar tudo bem mãe... - Falei com a voz embargada, abraçando-a.
Voltei para a casa sem falar nada.
A seu pedido, ficamos em silêncio sobre sua doença. Poucas e mais próximas pessoas sabiam do que nos acontecia, e à todo o resto, nosso semblante era exatamente o mesmo. Ninguém poderia dizer que tínhamos qualquer problema. Tão pouco um câncer corroendo nossas entranhas.
Foram quase 4 meses de luta, nas idas e vindas de hospitais, tendo por sua companhia, alguns poucos minutos por dia. Mas superamos, ela superou. Sessões de quimio, um coquetel de medicamentos, seu debilitamento, seus cabelos que caiam. Porém, enqto sua saúde ainda não voltava, seu humor esteve presente, sua força que dava as caras mais do que nunca. Uma grande batalha em que víamos a vitória logo ali na frente, certos sempre de que tudo ia ficar bem.
Meses se passaram, os exames sempre positivos, nossa vida voltava ao normal. Os cabelos que voltavam a crescer, o mundo voltara a girar. Então... outro baque... Um segundo tumor em seu cérebro.
Desta vez, confesso que fiquei mto mais abalada. Já não era mais capaz de dissimular sentimento algum. Estava trabalhando qdo o resultado saiu. Ela internada novamente, e eu tão distante, sem a possibilidade de estar ao seu lado naquele momento tão delicado. Fui direto para o hospital. Depois de 3 horas de espera, pude vê-la.
Ao entrar no quarto, ela já de olhinhos fechados preparando-se para dormir, abriu os olhos qdo parei nos pés de sua cama. Sorriu surpresa, tentando dissimular seu próprio medo.
- Aconteceu de novo Mi... Será que eu vou aguentar? - disse-me com um olhar de quem pede uma luz.
- E quem pode com vc, mãe? - respondi sorrindo.
E então seu olhar serenou. Cada vez que lembro-me deste dia, não consigo me conter. Nossa cumplicidade é de uma grandeza que eu mesma sou capaz de invejar. Ela sempre foi meu exemplo, guerreira, a fortaleza que não perdeu a delicadeza e a suavidade de um pequeno corpo de mulher. É a quem desejo tanto parecer. Nos momentos mais difíceis, foi ela que, com apenas um olhar e um carinho aconchegante, nos dava a confiança de seguir em frente.
Ainda sinto um enorme medo, egoísta e sincero, de perdê-la. Perder a amiga e confidente, de quem não consigo esconder absolutamente nada, e que conversa comigo com o olhar. É ela quem sabe sempre o que sinto, e como agir. É ela que está do meu lado a todo momento, com quem troco todas as minhas figurinhas.
E assim como a cumplicidade que lutamos tanto para construir, também continuamos lutando para que tudo continue bem. Suas sessões de radioterapia acabaram, o tumor sumiu, e espero que nunca mais volte. Seus cabelos ainda não voltaram a crescer, seu rosto continua inchado, e ainda sente mto cansaço. Porém nada abala a alegria de tê-la ao meu lado. De ver seu sorriso delicado a cada manhã.
Feliz dia das mães, mãe!
Beijos pessoas...

-> E sim, ela continua me chamando de "minha rosinha cheia de espinhos". Pq, segundo ela, preciso dos espinhos para me proteger. =) E como sempre digo à ela, herdei os espinhos dela...rs

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