quinta-feira, 2 de junho de 2011

Uma história de uma certa coxinha...

Minha mãe é ótima cozinheira, ótima anfitriã, esposa exemplar. Sempre quis ser como ela, em sua delicadeza, sorriso gentil e palavras doces. Nem tudo na vida definitivamente é como gostaríamos.
Sempre ensinou-me que uma mulher, mesmo que jamais utilize-se desses dotes, deve saber o básico - ensinados em épocas patriarcais - sobre lavar-passar-cozinhar... Confesso que como dona-de-casa, não sou exemplar como ela, mas aprendi não apenas a fazer, como também a de certa forma gostar.
Interessante esses ensinamentos, se considerarmos que minha mãe aprendeu a cozinhar não com a mãe dela, e sim com o pai. Exímio cozinheiro, fazia muitas guloseimas que até hj, enchem a boca da minha mãe de saudade.
Aprendi o gosto de cozinhar com ela, já que cedo a vida levou meu avô. Confesso que sinto inveja enorme das histórias culinárias que minha mãe conta sobre ele.
Qdo conheci o falecido, lembro-me bem que qdo resolvemos juntar os trapos, eu mal sabia cozinhar. Até então, minhas únicas especialidades eram doces, coisa que ele não gostava. Portanto, para agradá-lo, tive que esforçar-me para aprender a fazer salgados também.
No Japão temos grandes facilidades em relação à produtos naturalmente brasileiros, como feijão, temperos, até mesmo hortaliças. Fazia-me valer pelos famosos 'caminhões de produtos brasileiros' para comprar algumas especiarias. Falecido adoraaava, apesar de não cozinhar bem, qdo fazia seus pratos preferidos. Um certo dia, pediu-me que fizesse coxinha. Oras, coxinha é a especialidade da minha mãe, por isso para agradá-lo, quis fazer seguindo a receita dela. Liguei, pedi os ingredientes, explicou-me rapidamente como fazia, e lá fui eu, pôr literalmente as mãos na massa. Listei tudo o que precisava e fiquei a esperar toda feliz, o caminhãozinho que traria-me os ingredientes que não encontraria no mercadinho japonês na esquina de onde morava.
Carreguei as sacolas para o apê, e comecei a fazer o prato que deixaria o então querido namorado feliz. Aí me dei conta que esqueci do colorau. Segundo minha mãe, colocar tomate para dar 'aqueeela' corzinha, faz o recheio azedar com mais facilidade. Pensei. Fui até o mercadinho na esperança de encontrar o colorau. Decepção. Mas como toda boa boleira, pensei cá com meus botões... "Se é apenas para dar 'cor' ao recheio... Colorantes alimentícios estarão de bom tamanho." Comprei o tal colorante, e fui-me embora feliz.
Segui tudo à risca, conforme mamãe ensinou. Qdo o falecido chegou, fritei toda feliz as coxinhas tortas.
Comeu uma... Comeu duas.... Até que não se contendo mais, soltou: "Mi... O que vc colocou nesse recheio??" "Nada demais, recheio de coxinha é sempre a mesma coisa oras... Frango desfiado!"
"Não Mi... O que vc colocou de diferente nessa coxinha?" "Ahhh... Pára de reclamar e come quieto pow! Faço as coisas com o maior destreza e vc ainda fica colocando defeito... Que é hein?!" - Foi qdo mostrou-me a literal obra de arte: o recheio estava rosa! Minhas bochechas, tão pink qto aquele recheio, queimavam de vergonha. Oras... MALDITO COLORANTE!
Fiz ele prometer comer tudo, quieto, sem nem pensar em mostrar aquilo para alguém. E comeu. Bem quieto.
Anos depois, casados já, ele ainda brincava a respeito da minha "coxinha rosa". Aprendi a rir a também. Assim como também aprendi finalmente a fazer coxinhas. Não rosa. Normais mesmo.
Hj, cozinhar tornou-se um hobby. Faço por gostar, por prazer. Aprendi muito durante meu casamento. Os 20 kg ganhos durante esses anos de casados do meu ex-marido, são provas de que realmente aprendi.
Cozinhar é de fato, algo que me faz tão bem, qto ouvir uma boa música, ou ter uma conversa bacana com alguém. Me desliga do mundo, concentro o amor.
Ah, e só para constar: Não sei o sabor da coxinha... Não deu coragem de experimentar!
Beijos pessoas!

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